“Mafalda é uma heroína iracunda que rejeita o mundo assim como ele é” (Umberto Eco)

Mafalda é uma menina que surgiu para colocar o mundo de ponta-cabeça. Nascida nos anos 60, uma década pra lá de polêmica, ela não é chamada de “contestadora” à toa. Mafalda odeia as guerras, as armas nucleares, o racismo, as injustiças dessa vida bandida e, claro, sopa. Ela questiona todas as convenções sociais que nós nos acostumamos a achar normal, e o mais incrível é como os assuntos tratados naquelas tirinhas são atemporais, mesmo os tempos mudando, elas continuam fazendo todo o sentido hoje em dia. Fora o fato óbvio de ser uma protagonista feminina em uma época em que as mulheres estavam apenas emergindo, mostrando que ela estava realmente ali pra causar para quebrar tabus.

O Contexto

Suas tirinhas foram produzidas por Quino, na Argentina, de 1964 a 1973. Tempos de ditaduras, militarismo, comunismo, Guerra do Vietnã, Beatles, movimentos como feminismo e hippie, e todas as outras coisas que vieram com eles, como sexo livre, dorgas (sic) e rock’n roll. Mafalda é TRUE, mano!

E quem diria que uma menina que teve apenas 9 anos ‘de vida’ seria um dos maiores símbolos de liberdade, contestação e pensamento livre até hoje? De uma forma ingênua, bem humorada e simples, Quino usava seu alter-ego Mafalda para criticar tanto capitalismo como comunismo, além de todos os hábitos humanos que nós nos acostumamos e deixamos de nos espantar.

Em meio a todo esse caos, Mafalda é como um grito de consciência, disseminando ideias como a luta pelos direitos civis, democracia, igualdade e liberdade. O papel da mulher também é um ponto importantíssimo nas tirinhas, já que muitas vezes ela critica sua mãe por ter parado de estudar, chamando-a muitas vezes de medíocre. Ela também entra em conflito com sua amiga Susanita, que é extremamente egocêntrica e egoísta, além de achar que o único sentido da sua vida é se tornar a mulher e a mãe de alguém (Amélia).

De produto comercial a contestadora

Quem vê as tirinhas de Mafalda, nem imagina o que incentivou a sua criação. Um amigo de Quino, Miguel Brascó, afirmou em uma entrevista que “Quino tinha me comentado que estava com vontade de desenhar uma história em quadrinhos para crianças”, relembra Brascó. “Um dia, me ligam da Agens Publicidad e me pedem um desenhista capaz de criar uma tira cômica com uma publicidade subliminar que seria publicada em algum meio, para promover os eletrodomésticos Mansfield, produzidos por Siam Di Tella”. A condição seria que todos os personagens começassem com a letra “M”, por causa do nome “Mansfield”. E, inspirado pela turma do Peanuts e Blondie, ele cria Mafalda.

O nome foi escolhido por causa do filme “Dar las caras”, baseado na obra de David Viñas, no qual se falava de um bebê com este nome. Quino achou que ele parecia bem alegre o adotou para sua protagonista. Só depois que ele ficou sabendo do triste fim da princesa Mafalda de Savóia que passou os últimos dias de sua vida em uma concentração de Buchenwald.

A campanha de Mansfield foi um fracasso (que dó), porém isso não impediu o crescimento da menina. Em 29 de setembro de 1964, ela estreia oficialmente como tira. Até então todas as histórias giravam em torno de Mafalda e seus pais. Só quase um ano depois, Felipe (Filipe ou Felipito) aparece pela primeira vez. Depois dele, surgiram os outros personagens: Manolito, Susanita, Miguelito, Liberdade e seu irmãozinho Guille, fora os outros secundários, como os familiares destes.

Em junho de 1973, Quino, e mais ninguém além dele, já tinha notado que o repertório de Mafalda já havia se esgotado e que a garotinha já havia cumprido sua missão. Parando, assim, de produzir as tiras. Além disso, ele não quis fazer como Schulz (criador de Peanuts), que pagou toda uma equipe para continuar produzindo suas tirinhas. Quino achava que esse tipo de produção não era adequado ao seu estilo, e ele gostava de fazer pessoalmente cada uma de suas tirinhas.

Curiosidades

1ª tirinha de Mafalda:

Última tirinha de Mafalda:

Mafalda – ‘La Pelicula’ – parte 1 a 8 (coloquei apenas a primeira parte, para ver as outras é só abrir direto no Youtube)

E além de tudo isso, ela quer ser presidente!

Quem escreve? Marina


Jornalista, escritora e invocadora nas horas vagas.

comentário(s)

  1. HUahuhaua, não conhecia essa, mas bem maneiro, vou procurar mais tirinhas dela ^^

  2. Castilha disse:

    Tenho um Citroen 3cv, carro muito popular na Argentina e associado a Mafalda. Lá é conhecido como “La rana”. Ele aparece em algumas das tirinhas da Mafalda! Se não me engano era o carro do pai dela. Mafalda e ranita Rulez.
    Excelente post!

  3. Thomás disse:

    Bem legal esse post Marina!
    É triste saber que cada vez mais crianças não tem contato com esse tipo de quadrinhos…

  4. Raquel disse:

    Amo a Mafalda. Fiz até uma tattoo dela!

  5. Rafael Kaen disse:

    Eu adoro as tirinhas da Mafalda! :D

  6. Bee disse:

    Eu sou super fã da Mafalda e já li t-o-d-a-s as tirinhas! hahaha

    Tem um livro que se chama “Mafalda de A à Z”, se não me engano, que é uma compilação de todas as tirinhas já publicadas, super recomendo.

    Aliás, uma dica pra quem vai prestar vestibular/ENEM: muitas vezes, cai tirinhas da Mafalda em questões de interpretação.

    • Bruna disse:

      Nyáaaa eu também já li :B

      Quase roubei da biblioteca do cursinho.

      Mafalda cai muito em vestibular mesmo, afinal uma filósofa política desse porte não poderia ficar de fora desse tipo de prova.

  7. Pedro A. disse:

    Muito bom o post. Eu já conhecia a Mafalda, mas por causa dos livros de português da escola, sempre tinha três ou quatro tirinhas dela nos exercícios, sempre que davam o livro eu ficava procurando as tirinhas dela pra ler, muito boas :D

  8. Líryan disse:

    Não é a minha preferida mas é de grande relevância cultural e crítica, para a época. O fato de ser atemporal se dá pelo fato da humanidade não ter modificado muito nos ultimos milênios. Tá, eu sei que não se mora mais em cavernas e hoje tem a internet conectando o mundo, acontece que tudo isso é apenas um conseqüência do progresso e não da evolução humana.
    A humanidade progrediu tecnologicamente e tecnicamente, porém não evoluiu filosoficamente de maneira significativa, a maior das provas disso é o fato da grande maioria das pessoas aceitar livros de conduta ética e social escritos há mais de dois mil anos.
    Os seres humanos não se ocuparam em evoluir, e eu chego a duvidar de que tenham evoluído um só dia pois, desde os primórdios, haviam os que contestavam a realidade à sua volta e propunham questões e novas formas de ver o mundo, coisa que nunca chegou a todos. Hoje só temos mais pessoas assim, creio, por terem aumentado todas as proporções em reposta direta ao aumento do contingente humano.

  9. @anaskjr disse:

    Owwn! ela é mt fofa e esperta, sempre tem tirinha dela em livros didáticos de Português ^^

  10. Glaucio disse:

    Eu adoro essa personagem. Essa última tirinha tem no livro “Toda Mafalda”? Eu não encontrei no meu. Acho que fui enganado pelo título!

  11. Adorei esse personagem da semana, Mafalda ROCKS!
    Pessoal aqui na faculdade gosta tanto dela que temos até um projeto que usa as tirinhas da Mafalda com uns moleques de 7, 8 anos e eles adoram a Mafalda.

  12. Joyce Aymor disse:

    Poderiam fazer do La Linea, do Cava. É um cartoon italiano fantástico, que assim como Mafalda saiu de uma propaganda. Ele nao contesta, mas é absurdamente engraçado !

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