Recentemente, a adaptação de Y: O Último Homem, que há tempos é especulada, se tornou realidade. A New Line já tem um roteiro de Matthew Federman e Stephen Scaia (Jericho) e já começou o processo de escolha do diretor. Com a possibilidade da adaptação, resolvi que seria coerente publicar minhas impressões e, por que não, indicar o quadrinho aqui.

Y: O Último Homem é uma HQ tão ilusória quando as habilidades ‘escapísticas’ de seu personagem principal. A premissa é a seguinte: uma praga quase bíblica atinge e mata todo mamífero com o cromossomo Y no corpo, seja animal, humano, feto e até esperma. Todos os homens são mortos, menos Yorick e seu macaco de estimação, Ampersand.

Imaginando mentalmente o que viria desse argumento, imaginei um quadrinho machista (afinal é um mundo de mulheres, mas o protagonista ainda é um homem) que exploraria muito o lesbianismo e mulheres gostosas (como uma propaganda do Axe, lembram?). Um típico quadrinho feito pra punhetagem. Mas eu estava completamente errada.

Y traz a ideia de que ser o último homem do planeta não é tão legal quando parece. Yorick vive de mão em mão, assediado de inúmeras formas por mulheres: elas o sequestram, tentam matá-lo, seduzi-lo e outras coisas mais. O garoto, que antes dessa catástrofe global era um cara normal, imaturo, não atlético, formado em Letras que não conseguia arrumar um emprego e apaixonado pela namorada, de repente se vê como objeto de desejo (pra diversas finalidades) da população inteira.

A HQ é excelente por inúmeros motivos. Em primeiro lugar, saliento uma escrita densa e precisa, além de original, por Brian K. Vaughan (roteirista de Lost). Também são de incrível qualidade os desenhos de Pia Guerra , que está ali por mérito e não por ser mulher, com uma arte simples e perfeitamente complementar ao texto, com traços nítidos e particularidades como fumaça, sombreamentos e outras coisas feitas com giz de cera.

O desenvolvimento da trama (e principalmente dos personagens) também é muito bem trabalhado. Yorick amadurece no decorrer da história, e as personagens secundárias como a Agente 355 e a engenheira celular Dra. Mann evoluem e mudam dentro da história, os mistérios, as ‘plot twists’, a ação sempre bem pontuada são constantes e bem feitos no roteiro. Ele também é repleto de referências ao universo pop, metáforas, reflexões e muito humor (Yorick chega a lembrar o Peter Parker) culminando numa HQ coesa e bem feita.

Algo que vale mencionar é a forma como o autor situa a situação das mulheres nesse ‘novo mundo’, a organização da comunidade, o caos em que o mundo se encontra, e a dificuldade feminina em ter que assumir papéis que eram masculinos em trabalhos braçais e difíceis – por exemplo, uma modelo que gastou uma fortuna em silicone e vira lixeira nessa nova sociedade pra conseguir alimento. Também é legal a forma como o feminismo é tratado, e a exposição da realidade em que os direitos iguais tão anteriormente aclamados pelas mulheres se tornam um fardo difícil como obrigação nesse mundo sem machos. Mundo este que, aliás, não se encontra melhor e menos violento do que antes: há guerra civil, milícia, brigas políticas, saqueamentos e gangues, e até um grupo de Amazonas que é quase uma seita – mulheres que acreditam que a praga foi um desejo de Deus, e a idolatria à figura masculina deve ser extirpada da face da terra.

Achei isso uma sacada genial do autor! Se a história de Y se tornasse real, muito provavelmente as mulheres sucumbiriam a essa crença. Há uma dificuldade imensa, muito bem retratada, em lidar com a perda dos entes queridos masculinos, sejam maridos, filhos, irmãos, pais ou amigos. É completamente compreensível essa ~piração foda~ onde a resposta é ignorar essa dor da perda, essa falta que a figura masculina faz, e tentar suprimir isso e transformar em ódio, embasado numa crença religiosa. Afinal, nos momentos sombrios o ser humano perde a sanidade e ‘apela’ à espiritualidade pra explicar e lidar com coisas terríveis e dolorosas.

Espero que sinceramente, os envolvidos no projeto sigam o exemplo de Vaughan e surpreendam, fujam do estigma inerente ao argumento. Y tem material para se tornar uma boa adaptação, contanto que não transformem o filme numa ação cheia de lésbicas gostosas e um personagem engraçadinho.

Enquanto esperamos novidades sobre a equipe e o elenco da adaptação, fiquem com o fan film da IGNenterteinment : Y – The Last Man Rising.

Título Original: Y – The Last Man
Editora: Vertigo
Roteiro: Brian K. Vaughan
Arte: Pia Guerra

Nota : 8,5

Quem escreve? Mariane Gaspareto


Mariane é aspirante a jornalista e psicóloga de boteco. Gosta de cultura, mídias e entretenimento, aficionada por cinema, literatura, Séries de Tv e recentemente Quadrinhos. Palpita o tempo todo e sobre tudo, adora fazer referências que só ela entende e piadas tão internas que só ela dá risada.

comentário(s)

  1. matheus disse:

    pode ser um filme incrivel

  2. Patreck disse:

    Y: the Last Man é genial, e meu medo é justamente que um filme não seja a mídia correta, capaz de expor completamente toda a história, com toda a tragédia que a compões, sem apelar pra cenas de ação burras ou discurso preconceituoso.

    Se bem que, eles meio que conseguiram com Watchmen, então…

  3. ggab disse:

    Bacana. Nunca prestei atenção na revista por achar que não fazia o meu estilo. Mas vale conferir.

  4. Jorge Oliveira disse:

    Morte de todos os machos…
    “…essa dor da perda, essa falta que a figura masculina faz…”

    O artigo evita ênfase à situação de caos pelos carros abandonados e baixas nos cargos públicos e funções profissionais antes (na real, atualmente) exercido muuuito majoritariamente por homens, o que evidencia o papel extremamente secundário confiado às mulheres pelos homens em nossa sociedade.

  5. fabiano disse:

    Oi,parabéns pelo site e pela resenha. Estou começando a ler Y agora. Material de primeira. Tem muita coisa boa sendo publicada atualmente. As séries que eu mais me amarro são: ZDM, Frequencia Global, Vikings e Sweet Tooth. Quanto as adaptações para o cinema eu acho que são muito comerciais, o q

  6. fabiano disse:

    … pois é, cliquei antes. Então, as adaptações não me agradam muito,tem que ter muita sensibilidade para colocar na tela aquilo que os artistas dos quadrinhos produzem no papel. Era isso. Valeu

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